Whataboutism

O artigo propõe um modelo teórico que demonstra como a estratégia retórica do "whataboutism" (desvio de críticas apontando falhas similares no oponente) pode exacerbar a discursos ofensivos e levar ao colapso total das normas de civilidade em sociedades polarizadas.

Kfir Eliaz, Ran Spiegler

Publicado 2026-03-10
📖 4 min de leitura☕ Leitura rápida

Each language version is independently generated for its own context, not a direct translation.

Imagine que a nossa sociedade é como um grande campo de futebol dividido em duas torcidas rivais: a Torcida Azul e a Torcida Vermelha.

Este artigo de pesquisa (de Kfir Eliaz e Ran Spiegler) cria um modelo matemático para entender um fenômeno que todos nós já vivemos nas redes sociais ou em discussões políticas: o "E o que sobre...?" (ou Whataboutism, em inglês).

Aqui está a explicação simples, usando analogias do dia a dia:

1. O Cenário: O Jogo da Ofensa

Imagine que, às vezes, um jogador de uma torcida (digamos, um Azul) faz uma piada ofensiva contra a outra torcida (Vermelha).

  • O Benefício: O Azul sente prazer em fazer essa piada (é o "gosto" de ver o outro chateado).
  • O Risco: Se alguém da própria torcida Azul condenar a piada, o Azul perde pontos de reputação e sente vergonha.
  • O Perigo Maior: Se alguém da torcida rival (Vermelha) condenar a piada, o Azul também se sente mal, a menos que ele tenha um "escudo".

2. O Escudo Mágico: O "E o que sobre...?"

Aqui entra a estratégia do Whataboutism.
Quando a Torcida Vermelha aponta o dedo e diz: "Ei, você foi ofensivo!", o Azul não pede desculpas. Em vez disso, ele usa o escudo e grita:

"Mas e o que sobre quando um dos seus fez a mesma coisa semana passada e ninguém da sua torcida o condenou? Por que vocês só criticam a gente?"

Se o Azul conseguir lembrar de um exemplo assim (mesmo que seja um pouco mais grave ou em um contexto diferente), ele anula a crítica. Ele se salva da vergonha.

3. O Problema: O Efeito Dominó

O que os autores descobriram é que, quando esse "escudo" está disponível, as coisas saem do controle.

  • Sem o escudo: Se as pessoas soubessem que não poderiam usar o "E o que sobre...", elas teriam mais medo de ofender. Se um Azul fizesse uma piada ruim, a própria Torcida Azul o condenaria para evitar problemas. A civilidade seria mantida.
  • Com o escudo: Como o Azul sabe que pode se defender dizendo "E o que sobre a Vermelha?", ele se sente mais livre para ofender.
    • Mas espera! Se os Azuis ofendem mais, os Vermelhos também ofendem mais para ter material de defesa.
    • E se os Vermelhos ofendem mais, os Azuis têm mais exemplos para usar no escudo deles.

Isso cria um ciclo vicioso. Quanto mais as pessoas usam o "E o que sobre...", mais a civilidade desaparece. Eventualmente, em sociedades muito polarizadas (onde as torcidas se odeiam profundamente), a norma de "não ser ofensivo" quebra completamente. Ninguém mais se importa em ser educado, porque todos têm um "escudo" pronto para usar.

4. A Analogia do "Jogo de Espelhos"

Pense nisso como um jogo de espelhos em um parque de diversões.

  • Se você faz uma careta feia (ofensa), o espelho mostra sua careta.
  • Mas, com o Whataboutism, você aponta para o espelho do vizinho e diz: "Olhe a careta feia dele! Por que você está me criticando?"
  • O vizinho, então, faz uma careta ainda pior para ter um argumento ainda melhor.
  • Em pouco tempo, todo o parque está cheio de caretas, e ninguém mais consegue conversar sem gritar.

5. O Resultado Final

O estudo mostra matematicamente que:

  1. A polarização alimenta o caos: Quanto mais as torcidas se odeiam (quanto mais "sensíveis" e ofendidas elas ficam), mais frequente se torna o uso do "E o que sobre...?".
  2. A civilidade morre: Em vez de termos um debate saudável onde as pessoas concordam em não se ofender, o "E o que sobre..." torna-se a regra. A única maneira de ganhar a discussão é apontar a hipocrisia do outro, não em resolver o problema.
  3. O equilíbrio único: Existe apenas uma situação estável onde isso para de piorar: quando a sociedade já está tão polarizada que todos ofendem o tempo todo e ninguém mais se importa. É o "ponto de não retorno" da educação.

Resumo em uma frase

O artigo explica que o hábito de responder a críticas dizendo "mas o outro também fez" não é apenas uma tática de defesa; é um veneno que, ao ser usado, destrói as regras de bom comportamento da sociedade, transformando debates em brigas infinitas onde ninguém mais se respeita.